Sinais de ter um menino em 8 semanas

Dezembro de 97

2020.10.10 06:01 umnickqualquer Dezembro de 97

Mesmo já tendo corrido 20 anos, os detalhes continuam na minha mente: dezembro já estava quase na metade e aquela era a semana de recuperações finais do ano letivo. Eu não ia querer ser reprovado bem quando já estava terminando o 3o ano do 2o grau – era assim que a gente chamava na época – e só precisava daquele diploma pra poder seguir pra faculdade. É claro, isso se eu tivesse sido aprovado. Os resultados dos vestibulares só saiam em janeiro e entre a tensão de terminar a escola e a de finalmente começar História numa federal, eu ia administrando os meus 17 anos.
Pensando agora, enxergo que eu era um moleque bastante comum, mas não era assim que eu me vi na época. Meus CDs dos Racionais, biografia do Malcolm X e camisa dos Panteras Negras (que juntei dinheiro por meses pra comprar) se juntavam ao pequeno black que eu vinha cultivando pra criar algo que naquele tempo era uma mistura confusa de busca por identidade racial e afirmação juvenil. Tenta entender que eu estava entre a descoberta de Spike Lee e a de Frantz Fanon, sendo que o desbravamento de mim mesmo também não estava muito avançado. Esse ainda iria levar um tempo.
Acabada a recuperação, eu esperava na saída do corredor pro pátio olhando pra fora. Enquanto estava em sala de aula, a chuva que tinha ameaçado cair a tarde inteira começara a desabar com força e não parecia estar perto de acabar. De onde estava eu podia ver o temporal alagando tudo entre o pátio e a quadra de esportes perto do portão, enquanto alguns alunos tentavam fazer às pressas o caminho até a rua. Pode ser que eu não quisesse arriscar molhar os cadernos na mochila, ou talvez não quisesse chegar logo em casa pra ser bombardeado de perguntas sobre a prova, mas a questão é que resolvi esperar e enquanto aguardava recostado à parede, notei que o Wesley – que também estava na recuperação – havia chegado e feito o mesmo.
Era alguém interessante, o Wesley. Sua posição na classe me parece ambígua porque se hoje eu só consigo dividir a minha 3a série entre Comportados e Turma do Fundão, ele não era nenhum dos dois. Sem ser necessariamente calado, rebelde ou participativo, conseguiu atravessar aquele ano letivo até o fim, apesar do seu tamanho e aparência indicarem que já tinha sido reprovado uma ou duas vezes. Se ao longo daqueles meses a gente trocou três palavras eu não lembro – enquanto os meus chegados eram quase todos maconheiros fãs de Planet Hemp e headbangers fãs de Sepultura, os dele, por mais que tente me lembrar, eu não tenho certeza. Tanto podiam ser a turma inteira como ninguém, na verdade.
Aquela vigília pelo fim da chuva deve ter me entediado ou talvez eu tivesse me sentido constrangido de ficar apenas em silêncio a poucos metros dele, mas a questão é que, ainda olhando pra porta, falei:
– Parece que a gente vai ficar aqui até amanhã – também sem me encarar, ele disse:
– Por mim não tem problema.
Como não respondi, acho que ficamos em silêncio por mais ou menos um minuto, os únicos sons sendo o temporal caindo e os carros passando pela rua em frente. Sem nenhum aviso, as luzes do corredor e das salas vizinhas se apagaram e uma mistura de murmúrios e gracejos percorreu o prédio da escola enquanto todos davam pela falta de energia elétrica. Agora iluminado apenas pelo cinza embaçado daquela tarde de chuva, o próprio tempo parecia em espera.
– Você já passou na faculdade? – perguntou o Wesley.
– Não sei. Acho que sim, mas tem que esperar sair o resultado ano que vem – respondi, meio desconfortável por ele não ter continuado em silêncio – eu não tinha certeza suficiente pra dizer que achava que sim, mas aquele era sempre o jeito mais rápido de conduzir as conversas sobre vestibular.
- Tomara que o mundo não acabe antes de você se formar, igual todo mundo acha, né? – retrucou ele, com um tom mais leve do que o anterior – e você pode ir pra faculdade com esse cabelo? Eu costumava ser bem sensível a qualquer crítica em relação ao meu black. Tanto porque a maioria delas era escrota quanto porque não era fácil tratar dele e aquela era uma das poucas coisas de que gostava na minha aparência. “Vocês ainda vão ver presidentes com um maior que o meu”, costumava responder. Por algum motivo, no entanto, talvez o modo como a pergunta soou sem nenhuma maldade ou intenção de ofender, eu não me importei e apenas respondi:
- Claro que sim, lá não é o exercito – observando ele fazer um leve sinal de assentimento e sem saber como continuar aquela conversa, perguntei – o que você vai fazer agora?
- Ir pra casa, tirar um descanso e trabalhar de noite, por quê? – respondeu ele, parecendo surpreso que eu perguntasse.
- Não, tô falando agora depois de se formar. O que você vai fazer depois do 2o grau? – corrigi, por algum motivo desconfortável pela interpretação da minha pergunta.
- Ah – falou ele, se demorando como se tivesse que se lembrar de algo bem distante – eu quero arranjar alguma coisa com o diploma. Tentei o exercito ano passado, mas não entrei, fui dispensado. Agora com a escola completa deve dar pra conseguir alguma coisa boa e talvez eu faça curso técnico – completou. “Você também não sabe direito”, eu pensei. Hoje, penso que estranho seria se algum de nós dois naquela época tivéssemos certeza de alguma coisa.
– E por que você tinha certeza que eu tinha sido aprovado na faculdade? – perguntei, incerto sobre como prosseguir a conversa.
– E como não? Você é todo inteligente, todo engajado – respondeu ele, com um sorriso que eu não sabia se era irônico ou parceiro – peão de obra que você não ia virar. Me senti um pouco desconcertado, tanto por não imaginar que esse garoto com quem eu nunca tinha falado antes tinha uma imagem a meu respeito quanto por não estar nem de longe tão certo sobre o meu próprio futuro quanto ele. Pensei em alguma consideração elogiosa pra fazer, mas me toquei de que eu não o conhecia. Na verdade, aquela era a primeira vez em que eu realmente reparava nele. O corpo alto e magro que vestia o uniforme, a pele castanha quase no meu tom e o cabelo aparado rente ao couro cabeludo podiam pertencer a metade dos alunos daquela e de qualquer outra escola estadual do país. Esse foi o primeiro momento em que quis saber alguma coisa sobre o Wesley.
O que respondi a ele eu não me lembro, mas sei que nos sentamos no chão do corredor enquanto a chuva continuava caindo persistente lá fora e os poucos alunos que restavam no prédio saiam pela porta à nossa frente. Nós mais do que falamos, conversamos, e apesar dos detalhes terem sumido da memória, ficaram os temas. A escola que acabava; a família que pressionava; o que estava por vir, fosse o que fosse. Especulamos sobre o que a gente sabia e não sabia e naquele momento só não falei mais porque ainda havia coisas que eu não confessava nem a mim mesmo. Com sua voz um pouco mais juvenil do que seu tamanho sugeria, os pelos no queixo de alguém que se esquece por uns dias de aparar e uns olhos estreitos e reluzentes que devolviam ao mundo um reflexo mais brilhante do que a imagem que receberam – todos os pontos em que eu só reparava naquele momento – o Wesley parecia real, único. Não sei quanto tempo se passou, mas naquela hora só existiam o corredor escuro e aquele garoto pouco mais velho que eu – as preocupações não sei aonde tinham ido, talvez lá fora junto com a chuva.
Ainda estávamos conversando quando verifiquei a mochila pra ter certeza de que não tinha deixado nada em sala e me deparei com a sombrinha velha da minha mãe, que eu devia ter guardado dias atrás e esquecido ali. Surpreso por ter encontrado, falei:
– Olha só e eu esperando aqui – disse em tom casual, mas a verdade era que eu preferia não ter achado e pra esconder essa contrariedade, dele e de mim mesmo, me levantei, ainda que sem vontade de ir embora. Talvez fosse por não ter coragem de encarar o tempo forte bem à minha frente sozinho que ofereci:
– Quer carona? – ao que ele respondeu pegando a mochila e se levantando também.
Saímos para a chuva fria e, talvez por dividirmos uma sombrinha minúscula, estávamos com os braços nos ombros um do outro enquanto corríamos pelo pátio vazio – quem fez o gesto primeiro, não sei dizer. O temporal estava mais forte do que parecia do lado de dentro – Wesley e eu ficamos encharcados, as vistas turvas e nossas camisas ensopadas, grudando tanto na pele quanto uma na outra, enquanto corríamos ombro a ombro. Quando a tempestade finalmente venceu e rompeu as ligações da sombrinha, ficamos perdidos de vez, com a água e o vento vindo como uma surra por todos os lados. Vendo que era impossível tentar chegar ao portão daquele modo, corremos para a quadra de esportes, que era coberta e ficava entre o prédio principal, de onde tínhamos vindo, e saída da frente.
Foi um alivio voltar a ter um teto sobre a cabeça. Assim como o prédio principal, a quadra estava às escuras e sem mais ninguém além de nós. As roupas molhadas pareciam pesar 01 kg e enquanto eu enxugava o rosto com a camisa do uniforme – sem perceber a idiotice de tentar me secar com um pano molhado – Wesley passou os dedos de leve pela ponta do meu cabelo, abaixado pela chuva, e disse, divertido:
– Então é assim que fica quando molha.
Sei que respondi alguma coisa, não lembro o quê, e nós dois rimos. Ele estava tão encharcado quanto eu e apesar do comentário casual, percebi que tremia de frio e tinha a respiração pesada, com o peito subindo e descendo da corrida. Notei que eu também estava assim. Ficamos mais algum tempo em silêncio, enquanto a chuva não dava sinais de passar.
– É, acho que não vai acabar tão cedo. Valeu pela carona, eu vou daqui – disse o Wesley, com gotas d’água ainda escorrendo pelo rosto.
– Falou, boa sorte – respondi. Pensei em dizer “foi bom falar com você, que pena que a gente não se conheceu antes”, mas calei. Eu não sei que sinal o meu corpo transmitia naquele momento, pensei nisso por anos até decidir que não era importante. Quando o Wesley se aproximou de mim antes de sair da quadra, pensei por dois segundos que seria para um abraço de despedida, desejos de sorte na vida e tal, mas quando chegou perto do meu corpo, foram a minha boca que ele procurou.
A partir daí só posso explicar o que houve por sensações. O frio dos lábios dele; o calor bem-vindo do seu hálito, e junto com um sabor que parecia ser pasta de dente, o gosto de chuva como se eu estivesse beijando o próprio temporal. É estranho pensar o quanto tudo foi inesperado e ainda assim sem erros – perfeito. Não teve espaço pra estranhamento ou resistência da minha parte, só uma reciprocidade fortuita que parecia agir por conta própria. O ato era a última coisa que eu podia esperar naquela hora e ainda hoje um dos momentos mais inusitados da minha vida, mas ainda assim naquele minuto foi tão natural, tão correto para aquele eu adolescente, quanto o tempo forte que desaba numa tarde de dezembro.
Quando nossas bocas se afastaram, o Wesley foi até a borda da quadra, olhou pra fora por um segundo e então correu, desaparecendo na chuva. Só o que pensei naquele momento foi que devia ter dito tchau – talvez porque a gente não diga adeus quando tem 17 anos. Continuei onde estava e o fato de agora estar sozinho me pareceu o mais estranho do mundo. Eu não sei quanto tempo fiquei esperando estiar, mas quando isso aconteceu, saí rápido em direção ao portão como ele tinha feito. Mesmo caindo com menos intensidade, o temporal então me parecia pior, mais frio e impiedoso. Tudo o mais naquele fim de tarde hoje me parecem só flashes: o ponto lotado, o ônibus pra casa, chegar no quarto e por a mochila no chão. Não vi sinal do Wesley enquanto percorria aquele caminho e é óbvio que nunca soube dele desde então. Do mesmo jeito que não sabia antes daquele dia.
Talvez não fosse uma lembrança tão viva ainda hoje se não fossem os tempos de chuva desses 20 anos pra cá. Mesmo que eu esteja resguardado em casa vendo o temporal pela janela, sinto o sabor gelado nos lábios e a água escorrendo pelo queixo como se estivesse do lado de fora, desprotegido, feito um menino que se põe debaixo da tempestade com a boca aberta brincando de provar o gosto do céu – de juventude, de conversar sem pressa num corredor escuro enquanto o mundo espera lá fora.
submitted by umnickqualquer to rapidinhapoetica [link] [comments]


2020.10.02 09:03 UninformedImmigrant U wot m8? Estórias de um gajo que se mudou para o UK [Capítulo 3: Conduzir no UK]

Olá amigos. Hoje vamos novamente falar de carros, desta feita das diferenças que encontrei entre a condução no UK e em Portugal. Como é meu hábito e apanágio, vou desperdiçar o vosso tempo a explicar porque é que eu acho que as diferenças são o que são, em vez de prestar o serviço útil que seria especificar quais as diferenças exactas. Pode ser que se consigam tirar umas pelas outras.

Take-Aways Principais

Guinar para a direita em caso de emergência

Guinar (verbo): * dirigir um veículo abruptamente numa certa direcção, normalmente como reação a algo abrupto e inesperado; * mudar radicalmente de opinião acerca de um assunto, normalmente porque a opinião anterior deixou de nos ser vantajosa (ver: política).
Quando se começa a conduzir muito novo, como foi o meu caso, desenvolvem-se instintos para certas coisas. Por exemplo, se se nos apresenta um perigo de frente, então o instinto é o de encostar à direita primeiro e fazer perguntas depois; toda a gente treina a encostar à direita, por isso todos fazemos o mesmo e todos ficamos todos em segurança. Não tem que haver pânicos nem descontrolos; há que colocar o veículo em segurança (seja lá qual for o estado anterior) e depois logo se vê o que é que se faz e fez e de quem é a culpa.
Isto é, até conduzirmos num país em que toda a gente guina à esquerda, claro.
Um dia destes atravessava uma pequenina aldeia no interior profundo do Sudoeste. (Uma pequena tangente: as aldeias pequeninas do interior profundo do Sudoeste são das coisas mais bonitas que já vi. Tropeçam-se em abadias da idade média e em monumentos pré-históricos, é incrível.) Obviamente, a rua era estreita demais para caberem dois carros. Nestes casos noto os meus instintos continentais a tomarem conta da condução, e dou por mim a colocar o carro mais à direita que à esquerda. Não tem mal; de qualquer modo vou sozinho. Pouco depois a rua abre-se numa (espectacular) praça ampla e deparo-me com uma senhora num Range Rover em claro excesso de velocidade directamente à minha frente, dirigindo-se na minha direção e, portanto, na direcção do meu precioso carro novo. Eu guinei à direita, ela guinou à esquerda (dela), bom travão e ficámo-nos pelos embaraços. Ela deitou as mãos à cabeça, e eu tive que dar o braço a torcer; regressei ao meu lado da estrada de olhos fixos em frente. Travões foram testados, palavrões foram ditos, lições foram aprendidas.
Eu defendo que a adaptação à condução no UK se divide em 4 fases mais ou menos distintas:
  1. Primeiras semanas: "foda-se caralho de onde é que veio aquele não sei fazer nada ai vem aí uma rotunda AI FODA-SE AFINAL SÃO DUAS VALHA-ME NOSSA SENHORA VAMOS TODOS MORREEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEER----"
  2. "Afinal isto até se faz": começa-se a ganhar alguma confiança e deixa-se o "piloto automático" tomar conta de vez em quando.
  3. "Afinal não": apanha-se um susto (vide senhora do Range Rover), e a condução volta a ser tensa.
  4. Verdadeira adaptação: depois de uns milhares de quilómetros e de umas idas a Portugal, um tipo nota finalmente que parece tão familiar conduzir de um lado como do outro. Não há hesitações, consegue-se prever o fluxo do trânsito, sabe-se onde andam as rodas, e por aí fora.
Este episódio marcou a minha fase 3. Naturalmente, neste momento encontro-me na última destas 4 fases, o que se consegue facilmente compreender uma vez que não vejo o futuro. Ainda assim parece-me razoável que assim seja: é comum os processos de aprendizagem e adaptação se fazerem em "tentativas", em ondas e bochechos até estabilizarem em algo confortável. Cavalgamos no sentido de nos sentirmos melhor, mais confiantes, e por isso tapamos buracos no chão com tábua fina. Quando pisamos a tábua ela racha, e aprendemos que temos que a trocar por tábua mais grossa.
O instinto é, pelo menos para mim, uma parte muito importante da condução. Eu habituei-me a ter uma noção quase extra-corpória de onde está o carro, onde vai passar, o que é que os outros estão e vão fazer, etc. E todo o processo é completamente inconsciente: basta-me ir com atenção e toda a condução se faz suavemente e por si própria. Aliás, uma das primeiras coisas que notei quando comecei a conduzir aqui foi o quão exausto estava depois de uma viagem; todo o processo era muito mais manual, muito menos fluído e muito mais difícil de manter.

Conduzir é mais que guiar, é comunicar

Eu não sei das vossas inclinações filosóficas, mas eu cá perco-me um bocado com pesquisas; vem com o trabalho na academia, suponho. Ora sucede que, segundo se consta em ramos como a Psicologia, a comunicação entre pessoas é muito mais do que verbal. Claro que todos nós sabemos, conscientemente ou não, que isso é verdade: uma mulher dizer "não" enquanto morde o lábio é muito diferente de dizer "não" enquanto nos esbofeteia, o que por sua vez é muito diferente de dizer "não" enquanto nos esfaqueia no abdómen. O que ela disse foi o mesmo, mas a intenção era claramente diferente. São essas subtis marcas não-verbais que fazem toda a diferença na interacção do dia-a-dia.
Ora a condução, na medida em que envolve uma série de processos de mediação, não é mais que uma forma de comunicação. Ao colocarmos o carro em certo local indicamos que queremos avançar; os piscas indicam para onde vamos (quando se usam); podemos acenar para ceder passagem, ou abanar a cabeça para explicar pacientemente que não pretendemos ceder passagem. Podemos buzinar para expressar descontentamento, ou ofensa, ou felicidade porque o Benfica ganhou. Podemos trocar o escape por um barulhento para comunicarmos a todo o mundo que somos profundamente atrasados mentais. Podemos colar o logo da FPF na mala do carro de modo a mostrarmos a todos que não só somos portugueses, como também não sabemos distinguir o futebol dos verdadeiros símbolos nacionais. Podemos até abalroar um peão ou um ciclista como forma de lhes fazermos ver que a estrada não é sítio para eles.
Todos estes actos são pequeninas mensagens que indicam aos outros utilizadores da via o que pretendemos fazer. A condução está cheia destas pistas. É como manter uma conversa: "eu vou para ali", dizemos nós com o pisca, "ok, mas eu passo primeiro", diz o outro condutor avançando, "ok, passa então", dizemos nós parando, e por aí fora. Ora, como em toda a boa forma de comunicação, povos diferentes falam línguas diferentes. Eu defendo que na condução se passa exactamente o mesmo.
Em Portugal a comunicação entre condutores é muito franca e aberta: toda a gente que vai mais devagar que eu é um caracol do caralho, e toda a gente que vai mais depressa é doido. Ninguém passa à frente porque eu é que sou importante, e outros que tais típicos silogismos Latinos. Obviamente que a mim, como português, a "língua" a mim me parece aberta, clara e óbvia. A habituação ao estilo português de condução permite-nos prever muito bem o que é que vai acontecer, e decidir de acordo com isso. Conseguimos saber quando esperar que o veículo à nossa frente acelere, sabemos como esperar que reaja a mudanças no limite de velocidade, sabemos como reagir a uma travagem na autoestrada, etc. Estamos integrados na massa de condutores que nos rodeia, aos quais estamos unidos por uma teia de micro-acções (não confundir com a fraude das micro-expressões) que nos fazem entender uns com os outros de forma natural, quais formigas no carreiro.
Um condutor estrangeiro topa-se à distância. Na minha terrinha é costume receberem-se alguns carros de matrícula francesa entre o fim de Julho e o início de Setembro, mas nem era preciso olhar para a matrícula! A forma como se posicionam, como contornam uma rotunda, até como avaliam quando entrar num cruzamento traem logo a estrangeirisse (ou a emigrância longa). Claro que o logo da FPF no vidro de trás acaba por denunciar muitos, mas garanto que também não era preciso. (Nota: ainda não apliquei no meu carro o obrigatório logo da FPF. Eu pensava que me chegava um pacote da embaixada assim que comprasse o carro, mas noto que até nas coisas importantes a diplomacia portuguesa me está a falhar.)
No UK, as pessoas parecem ter para a condução a mesma atitude que têm no dia-a-dia umas com as outras: uma certa vontade de não agravar, uma delicadeza assertiva e um pragmatismo típico que tornam o processo bastante diferente do nosso. Isto complica a habituação à condução aqui para lá do óbvio "fazer tudo ao contrário". Eu até diria que a condução à esquerda é uma falsa barreira, e que a adaptação é muito mais profunda que isso. Existem expectativas diferentes, dicas diferentes e assunções diferentes. Numa palavra, o trânsito inglês é "ordeiro". As filas unem-se por "zippering", os limites de velocidade são respeitados, as manobras anunciam-se atempadamente com piscas. As marcas da estrada são claras, abundantes e respeitadas. Não se fazem arrancadas, não se corta à frente de ninguém; estamos todos nisto juntos. O trânsito é cooperativo e não adversarial. Obviamente que há excepções, mas estamos aqui a falar no sentimento geral e esse é, sem dúvida, muito diferente do português.
Inicialmente, a sensação é assoberbante. É como tentar falar uma língua que nunca falámos antes. Eu não sei o que é que estas pessoas estão a fazer, nem porquê, nem com que intenção. Obviamente estamos todos a tentar chegar a algum lado, mas os detalhes escapam, e toda a gente sabe que o diabo está nos detalhes. É como ouvir alguém falar criolo: eu percebo algumas palavras, uma expressão aqui e ali que traem a origem portuguesa, mas a mensagem global ilude-me. Uma coisa que fez muita diferença foi entender que as rotundas pequeninas (aquelas desenhadas no chão) na realidade não são rotundas; são cruzamentos. Dá-se prioridade à direita, e não se entra lá dentro enquanto lá estiver alguém. Entender isto foi um salto enorme para mim.
Como é óbvio, o episódio ali acima da senhora do Range Rover foi coisa comum durante algum tempo. Entrei mal em rotundas, parei em cima de grelhas, fiz outras coisas completamente erradas por não entender um sinal, e por aí fora. Curiosamente, nunca andei em contramão nem nunca achei particularmente estranho conduzir ao contrário. A Maria diz que puxo um bocadinho à direita quando estou distraído, mas eu acho que é do vinho que ela bebe ao almoço.
Eu suspeito que haverá toda uma área de estudo acerca desta ideia de "conduzir é comunicação", porque não sou esperto o suficiente para estar aqui a descobrir ramos da filosofia. Até podia jurar que li um paper ou dois sobre as teorias de negociação de cruzamentos, e da forma como isso se podia codificar como linguagem. Ou então sou parvo. ¯\_(ツ)_/¯

Mais devagar é lesma, mais depressa é acelera

A velocidade é um exemplo óbvio de um aspecto da condução em que Portugal e o UK são radicalmente diferentes. Ora eu, português de gema, chego à A1 e afino o cruise control na velocidade mais elevada a que posso circular sem ser multado: 150. A essa velocidade, meros 30km/h acima do limite legal, vou constantemente a ultrapassar e a ser ultrapassado. Há uma certa formalidade em todos os desvios: a velocidade obriga a que as mudanças de faixa sejam feitas cuidadosamente, indicadas com antecedência, e até avisadas com sinais de luzes durante a noite. Acelera sim, parvo não.
Por outro lado, em terras de Sua Majestade a velocidade é o inimigo número 1; o condutor médio aqui seria visto em Portugal como "uma lesma do caralho". Mas pensemos um bocadinho: andar depressa é muito bonito, mas suponhamos que eu não sou novo, ou que estou cansado, ou que acabei de receber más notícias. Conduzir depressa nessas condições é geralmente uma má ideia mas, mais do que isso, a minha capacidade de prever o que fazem os aceleras fica fortemente diminuída. Se todos respeitarmos o limite, que por sua vez deve ser mais ou menos sensato, então garantimos que a estrada é um ambiente mais inclusivo e menos perigoso para todos. Consequentemente, torna-se muito menos excitante para nós, pessoas novas e (excessivamente) confiantes, que gostamos de apertar. Além disso, a velocidade é fortemente fiscalizada e as multas são muito caras.
Não, a sério, as multas são muita caras. Vi os preços e decidi que andar devagar já não me incomodava assim tanto.
Inicialmente, atravessar uma aldeia a 30mph trazia-me ânsias. "O que é que eu vou a fazer a esta velocidade? Vou ficar velho antes de lá chegar!"" Mas com o tempo habituei-me a um estilo de condução mais lânguido, mais relaxado. Posso ouvir uma musiquinha ou um podcast enquanto atravesso a aldeia nas calmas. Nada de mal me vai acontecer porque, francamente, indo a 30mph pára-se quase instantaneamente. É quase zen!
As estradas de campo, pelo menos para estes lados, são uma experiência completamente diferente. O limite de velocidade por omissão numa A ou B road é de 60mph, aproximadamente 100km/h, ou 10km/h mais alto que o limite português. A isto alia-se uma característica interessante das estradas secundárias inglesas: são muito estreitas e não têm bermas; aqueles 60mph parecem 200! É possível praticar uma condução muito divertida, perfeitamente dentro dos limites da legalidade e da segurança. Para pessoas se viram forçadas a comprar um carro menos pontente do que inicialmente esperavam, é muito bom ainda assim se conseguir tirar algum prazer da condução mais "dinâmica".
Ainda assim, na presença de outros carros volta-se ao ordeiro. E isto nota-se até na condução de outros: é comum ir calmamente por estas estradas, e ver um carro aproximar-se por trás com uma atitude mais aventureira, apenas para depois se colocar tranquilamente atrás de mim como se nenhuma pressa alguma vez tivesse tido. Nada de tailgating, nada de tentativas parvas de ultrapassagem, apenas refrescante respeito pelo meu direito de respeitar o limite de velocidade naquela particular situação. E quando há uma aberta ou uma secção de duas faixas, então lá vai ele com pressa outra vez. A chico-espertice parece mais rara.

Toda a gente em todo o lado

Há um aspecto da sociedade no UK, pelo menos aqui no Sul, que nunca vejo discutido quando se fala em viver cá: este país é muito mais congestionado que Portugal. Há mais pessoas em todo o lado, há escassez de casas, há muito trânsito. Eu estou habituado a atravessar a estrada de campo entre Coimbra e a Figueira a meio da noite sem me cruzar com absolutamente ninguém. Tal coisa nunca me aconteceu aqui. Mesmo com uma rotina algo fora do comum, estou sempre limitado pelo trânsito onde quer que vá. Isto resulta, geralmente, numa condução mais lenta e aborrecida do que aquilo a que podemos estar habituados em Portugal. Ou, agora que já estou habituado, numa condução mais zen.
A própria infrastrutura contribui de forma negativa para isto. Pelo menos em relação ao que estou habituado, a rede de autoestradas do UK é menos extensa que a portuguesa (em relação à população e à área). Eu estou muito habituado a, onde quer que vá em Portugal, haver autoestrada quase de porta a porta. Claro que ter vivido sempre em cidades com bons acessos é um factor importante! Mas há vários caminhos relativamente extensos que faço com frequência, entre sítios "importantes" aqui, para os quais não há nenhuma ligação rápida. De um modo geral, noto que demoro mais tempo a cobrir distâncias semelhantes vs o que fazia em Portugal. A distância Bristol-Londres parece muito, muito, muito maior que a distância Coimbra-Porto. Claro que é maior, mas parece ainda maior do que o maior que já é.
Com uma rede de autoestradas com menos cobertura, torna-se muito comum as estradas de campo, aquelas bonitas das quais a gente gosta, estarem congestionadas: trânsito de caminho casa-trabalho-casa, trânsito agrícola, camiões ou bicicletas, etc. Assim, apesar de o limite de velocidade nas estradas de campo ser elevado, é relativamente raro conseguir-se fazer uma viagem com alguma distância a uma velocidade média decente. Como as estradas são estreitas, e como há aquele respeito a todo o trânsito, é muito mais difícil resolver isso com ultrapassagens.
Um aparte, e sabendo que é uma opinião altamente controversa e que só me vai trazer chatices: eu entendo que se um ciclista
então é um filho da puta e devia-lhe crescer um ananás no cu. Eu percebo que toda a gente tem direito a utilizar a infraestrutura. Eu entendo que o ciclista tem tanto direito a usar a estrada como eu. Mas do mesmo modo que os camiões de vez em quando encostam para deixar passar a fila, não ficava nada mal ao menino da licra fazer o mesmo. Eu quando sei que vou andar devagar, por exemplo porque vou em passeio ou a ver a paisagem, então também encosto de vez em quando para deixar os outros passar; lá porque eu posso usar a estrada para fazer isso, não quer dizer que seja fixe atrasar toda a gente que tem o azar de vir atrás de mim. É altamente irritante fazer 10km ou mais em segunda atrás de uma fila gigante, e chegar atrasado a todo o lado, só porque o Barry decidiu que hoje era dia de salvar o planeta. Po caralho, Barry.
A condução em autoestrada é muito diferente da nossa. Obviamente que há aceleras, mas regra geral o trânsito flui "en bloc" a 75 mph, suspeito porque o cruise control é muito comum cá. A diferença de velocidade entre caros é muito menor, e simultaneamente a velocidade absoluta a que todos circulamos é mais baixa. A condução em autoestrada parece menos "formal" do que em Portugal. É mais fluída, mas de uma forma desagradável: os ingleses não têm reservas nenhumas em meter pisca e atravessarem-se à nossa frente a 75mph. As ultrapassagens são muito frequentes, mas fazem-se com diferenciais de velocidade muito mais baixos, e por isso demoram muito mais tempo. Há muito mais trânsito de pesados na autoestrada, por isso são mais esburacadas e vê-se muito "snail races", aquele fenómeno em que um camião que circula a 61.2mph demora 2847289167219 horas a ultrapassar um camião que circula a 61.19mph.
A questão do congestionamento também se aplica, naturalmente, ao estacionamento. Os lugares são relativamente limitados e normalmente são pagos. Nem todas as casas que estão disponíveis para arrendacomprar têm estacionamento associado e, particularmente nas cidades, ter estacionamento privado é claramente um luxo. Eu tenho estacionamento privado neste bloco de apartamentos, mas isso é relativamente raro até aqui no campo. Sempre que quero visitar algum local faço questão de escolher de antemão onde é que pretendo estacionar, e até aponto o GPS logo para o estacionamento. Mas nem tudo são más notícias: é normal haver estacionamento pago e relativamente fácil em qualquer sítio que se queira visitar, e os preços normalmente não são horripilantes. Um contra-exemplo fácil é o centro de Bournemouth, onde normalmente pago umas 8£ para estacionar durante 6 horas. E uma boa parte dos estacionamentos aceita pagamento contactless, e alguns até são completamente ticketless, o que até é fixe. De um modo geral:

Conclusão

Eu podia escrever sobre conduzir durante dias, e talvez revisite o assunto no futuro. Não só é uma actividade que me traz uma satisfação imensa, como é algo que me intriga intelectualmente. Parece obviamente uma má ideia alguém propôr "ei zé, vamos dar a cada pessoa um caixote de lata de 2 toneladas, e fazê-los andar em velocidade, em sentidos opostos, a meros centímetros uns dos outros". Toda a experiência parece condenada à catástrofe mas nós, do nosso jeito humano, lá fazemos a coisa funcionar. É muito interessante ver que não só fazemos com que a condução seja algo que seja útil, como povos diferentes têm abordagens diferentes à "solução" para que funcione. Nós cultivamos um estilo de condução, os ingleses outros, e com um bocadinhod e tradução até acabam por encaixar.
Como referi antes, nesta altura acredito que a condução à esquerda é um "red herring" (um peixe vermelho?) no que toca ao processo de adaptação à condução aqui. Conduzir à esquerda é estranho, concedo, mas não é o mais estranho. Uma parte crucial da condução é sermos capazes de prever o que os outros vão fazer, de sabermos o que esperar e, posto de uma forma simples, as coisas aqui são diferentes.
As estradas estreitas de campo foram a salvação da minha saúde mental durante o lockdown. Estar fechado o dia todo, legalmente impedido de sair para tudo o que não seja essencial e receoso do contágio, é algo que pesa na mente. A possibilidade de me fechar seguro dentro do carro e passear foi um escape gigante. Geralmente, adoro conduzir aqui, nem muito mais nem muito menos que em Portugal. São dois estilos diferentes, mas ambos têm as suas virtudes.
É importante mencionar novamente, para benefício de quem lê na diagonal, que a minha experiência é altamente individual e que procurei relatar o espírito geral da vivência através de uma generalização que pode não funcionar. Obviamente que há excepções; obviamente que há parvos em todo o lado, e por vezes o parvo sou eu.
Para o próximo episódio estou a pensar fazer uma espécie de "rescaldo das crises" e cobrir o Brexit e a pandemia mais ou menos como um. Apitem na caixinha se acham boa ideia.
Abraços, e obrigado por virem à minha TED talk.

Capítulos Anteriores

Referências

Hoje não há :)
submitted by UninformedImmigrant to portugal [link] [comments]


2020.01.05 21:14 questionneur_social #Estamos de fato melhorado como sociedade?

Bom dia a todos ontem teve aquele caso da trans no banheiro feminino, e sua repercussão me fez questionar um ponto importante na atual organização da sociedade humana pós-moderna: estamos de fato seguindo para uma sociedade mais igualitária?
Antes que qualquer um aqui venha dizer que o fascismo está impedido o progresso para uma sociedade mais evoluída, quero explanar algumas ideias sobre os acontecimentos e eventos do ultimo século para verificar se realmente a sociedade igualitária é viável em algum nível de fato ou se apenas estamos passado por um período de transição de poder, na qual futuramente a ordem social vai esta invertida para as “minorias” atuais, determinado os rumos da sociedade e com as “maiorias” marginalizadas pelo estigma histórico que bem como sabemos são a bases que molda a cultura humana na onde sempre baseamos nossas decisões em cima dos eventos do passado.
No caso das trans no banheiro feminino, ficou claro que nossa sociedade ainda esta muito intolerante sobre a divisão dos espaços com outros membros da nossa sociedade, vi muitos comentários defendo que ela tinha direito de usar o banheiro por ser uma mulher, outros que deveria ser criando um banheiro quase que segregado para uso dos LGBT+ para não cria constrangimento entre as mulheres biológicas que se incomoda com o seu espaço sendo invadido por supostamente homens de peruca e vestido.
>Bem o que isso nos mostra sobre a sociedade brasileira de 2020? Que é transfobica e intolerante com os normatização dos discursos de ódio por ter respaldo de um governo fascista?
Parece-me ser uma explicação muito simplista de alguém que quer encontra um bode aspiratório para explicar problemas de ordem social cultural e jurídico sem precisar pensar muito em como um simples fato de um pessoa ao mudar seu gênero e usar serviços e direitos anteriormente restritos ao outro gênero impactam na sociedade como um todo.
Simplesmente julgar que essas mudanças não abalão todo o funcionamento da sociedade que determina deveres diferentes as pessoas pelo seu sexo é muita simplicidade para analisar toda um movimento de reestruturação da sociedade que estamos vivendo, estamos falado em praticamente refazer hábitos que forma a base que fundamenta a estrutura de valores, cultura, direitos e deveres individuais da sociedade não apenas sobre direito de usar o banheiro que você se sente mais confortável.
Faço uma pergunta aqui, não havia transfobia antes do Bolsonaro chega ao poder?
Não havia racismo ates do Temer?
Não havia discurso de ódio antes de a extrema direita ganhar força nos governos mundiais?
Resumir a isso só aconteceu depois da eleição do Trump no EUA, me parece ser muito desonesto com a realidade da formação das estruturas internas das sociedades, o ser humano não é uma criatura simples na qual apenas por tem uma pessoas trazendo ideais extremistas elas aderem sem questionar, isso é extremamente mais profundo na formação evolutiva da humanidade e não se pode acreditar que é possível se desconstruir tal condição.
Você não consegue desconstruir um ser humano para ser outra coisa que não um ser humano, isso não é possível nem em temos de logica hipotética, não compreendo como possa haver a crença de que seria possível no nível pratico.
Já havia perseguição as judeus muito antes dos antes dos antepassados de Hitler sequer estarem vivos.
Já perseguição aos eslavos muito antes de Stalin ou o Czar Alexandre subirem ao poder.
Já existiam suprematistas brancos antes de qualquer um do partido replicando entra na politica.
Logo essas pessoas hoje no Brasil, homens e mulheres transfobicos são um resultado não apenas do aumento do fascismo e liberdade para descriminar os diferentes e minorias.
#São simplesmente o resultado que silenciar todos no pretexto contenção do discurso do ódio não funciona e essas pessoas por se sentirem traídas pela sociedade que prefere não analisar suas reivindicações e problemas, mais sim buscar silencia-las para criar um estado artificial de bem estar na sociedade.
Sinto que essa tática do *”se eu não vejo ódio nas pessoas, então concluo que ele não existe”* esta começando a mostra claros sinal de que não funcionar mais tão bem como funcionava na ultima década, e que ignorar certas opinião de alguns por julgar que elas são destrutivas ( o que em grande caso são porem são baseadas em alguma realidade) esta corroendo as sociedade por dentro como cupins comendo uma arvore de dentro para fora, esta fincando claro que apenas taxar de discurso de ódio opiniões que critiquem certos grupos de pessoas sem buscar compreender as razões dessa declarações e buscar formas de censura tal opinião sem análise vai culminar na destruição da sociedade como um todo.
Pelo o que pude observa sobre o caso do banheiro, uma mulher trans de aparência não masculina, (isso é um ponto muito importante para essa discussão), foi impedida de usar um banheiro para poder fazer suas necessidades, com um lado dizendo que isso configura transfobia, confirmado pelo [PL 112] (https://pt.wikipedia.org/wiki/PL_122) mostrando um claro desrespeito a liberdade individual das pessoas a frequentarem a determinados lugares de uso publico.
Ao mesmo tempo temos mulheres que estão incomodadas com a possibilidade de terem o seus espaço invadido por trans visto que os espaços masculinos não sofre do mesmo problema devido a fuga dos trans por julgarem que sofreriam assedio em banheiros masculinos, logo além da sensação de que os trans estão usando um espaço que elas batalharam muito para conseguir, também sente o estranhamento de isso implique em ter homens travestidos de mulheres invadindo a seu ambiente em um momento vulnerável.
Eu coloque anteriormente que se tratava de uma trans de a fisionomia claramente feminina, porém acredito que o medo das mulheres que não aceitam essa invasão se deve ao afrouxamento do conceito de [identidade feminina baseado no sentimento interior do individuo] (https://www.conjur.com.b2018-set-23/mudanca-genero-questao-direito-arrependimento) e a possibilidade de pessoas como [Karen White, de 52 anos, estava presa preventivamente pelo estupro de duas mulheres e já havia respondido antes por abuso sexual infantil, foi transferida para um prisão feminina após de declara como mulher a corte] (https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45482538) poderem adentra banheiros e espaços femininos baseado apenas no fato de se sentirem mulheres e assim porem atentar contra a segurança das mesmas.
Não vejo o problema de como trans com fisionomia feminina como [Ticiane Fernandes]( https://www.google.com/search?q=ticiane+fernandes&newwindow=1&sxsrf=ACYBGNTw84MuyIe3Lut4AX89xTW8T0VUcg:1578250644903&source=lnms&sa=X&ved=0ahUKEwiNgbnoke3mAhVOIbkGHVE8DloQ_AUIDSgA&biw=1366&bih=614&dpr=1) venhao%20venhao) a ser algo que incomode alguma mulher, me parece ser algo muito mais relativo a não mais haverem limites que ordenem oque cada sexo pode ou não fazer, com tambem não haver meios de conter um molestador por frouxamento da sociedade, se trata de um problema de ordem estrutural dos deveres e obrigação, não algo motivado puramente por ódio ao diferente, e sim algo mais complexo que uma simples analise superficial da situação podem falar.
Pois como filtra essas pessoas que pode ou não agir de má fé para se beneficiarem em do caos social que deixou varias brechas abertas para esse comportamento oportunista?
Parece-me claro que se trata mais sobre ao liberar esses espaços sem uma clara definição do que é uma mulher poderia abri espaço para que homens ao colocar uma peruca não pudessem ser impedidos de ser retirado desse espaço ao afirma que é uma mulher em inicio de processo de transição ou declarar ser de gênero fluido e se sentirem naquele momento uma mulher e possibilitar um oportunista cometer abusos por esta explorando a falta de ação das pessoas apegadas a características da fisionomia masculina e feminina para determinar os gêneros na sociedade.
Por mais que exista a discussão sobre gênero e papel de cada sexo, a fisionomia e entendimento do que é um homem e o que é uma mulher esta segue completamente inalterada, por mais que existam dragqueens se montando como mulheres e desconstruindo dos estereótipos masculinos, ainda temos forte em nossas cabeças que mulheres possuem seios e homem barbas e carecas, mulheres usam roupas que exibem seus corpos, homens usam roupas que apenas confortáveis, a camisa regata e short pega rapaz segue sendo a peças mais reveladoras do guarda-roupa masculino. homens são musculosos e possuem uma anatomia mais "agressiva", mulheres possuem anatomia marcada por curvas e traços mais "delicados".
Ou seja, os valores de identificação visual de cada gênero não poderiam estar mais solidificados, mesmo com movimentos de contra cultura questionando esses padrões, ainda se tem enraizado claramente o que deve se considerado uma mulher e oque deve ser considerado um homem e esse pensamento subjetivo de que as pessoas podem mudar tais características e serem novos seres humanos com valores reformulados por conta de sua nova condição física esta entrado em conflito com a primeira condição, ser homem e mulher esta muito além de sensação intima do ser humano sobre como ele enxergar a si mesmo e em algum momento deve ser evidenciado por caracterização física como roupas, cortes de cabelo e comportamento ou será puramente abstrato demais para ser considerado valido.
Acredito que no âmbito feminino, a possibilidade de homens se aproveitarem dos espaços de mulheres e não haver formas de identificar essa atitude, pois ser mulher esta entrado em uma fase de interpretação do entendimento da maioria não em evidencias rastreáveis, venha causa mais medo do que um eventual trans molestador nos banheiros femininos, a fato de estamos claramente preso a fisionomia para identifica os sexos e o fato de não ser mais necessário a cirurgia de resignação e aparição de termos como *”pênis feminino”* sendo considerado como anatomia feminina valida esta gerando o sentimento de perda de espaço feminino conquistado, pois levou-se quase 250 anos para cossegurem chegar aonde estão, e levou nem 20 anos para os trans superarem esses supostos direitos adquiridos.
Também em minhas pesquisas foi notado que muito das criticas as trans partem de homem que teriam sua sexualidade fragilizada e frustada pelo aumento do protagonismo de trans na sociedade.
Bem como foi dito anteriormente, estamos apenas a silenciar essas pessoas e não ouvindo oque ela tem a dizer e por que estão descontentes com essa situação e ficar apenas acreditando que se eliminarmos todos os discursos de ódio dessas pessoas elas não irá ficar ressentidas e os problemas desapareceram é claramente um sinal que não estamos tendo maturidade para perceber a dimensão desse problema e de como estamos achando que isso só deve ser silenciado para não gera mais ódio claramente demonstra que:
>não apenas o ódio gera mais ódio, mais ressentimento e coerção gera rancor e gera ódio como produto final.
>E que estamos completamente esvaziados de empatia. Nós cobramos e ficamos ofendidos quando não a recebemos, isso sem jamais mostra qualquer comprometimento em devolver.
Vejo que para muitos homens, os transxessuais estão se evadindo das [responsabilidades inerentes ao gênero masculino ao nascer] (https://www.conjur.com.b2012-mar-08/seriam-homens-mulher-realmente-iguais-lei), como alistamento obrigatório, aposentadoria mais tardia, cobrança de penas diferentes para os mesmos crimes e outras questões dos direitos masculinos e estariam se apropriando dos direitos jurídicos das mulheres, que na atual sistema social SÃO inegavelmente mais vantajosos que os dos homens, e assim sendo traídos pela sociedade que ainda os responsabilizam por todos os problemas históricos e culturais.
As mulheres apontam [privilégios sociais que os homens possuem naturalmente]( http://nodeoito.com/privilegios-homens/), homens os [privilégios das mulheres que estão no âmbito jurídicos e políticos oriundos uma sociedade ginocêntrista, que valoriza o bens esta social da mulher sobre o custo da do homem]( https://br.avoiceformen.com/movimento-por-direitos-humanos-dos-homens-e-meninos/uma-introducao-sobre-direitos-dos-homens/). (NOTA, aos que acham que a *voice for men* não é uma boa fonte para pesquisa, aonde irasse encontra uma discussão sobre direitos masculinos que não em uma pagina de direitos masculinos?).
Logo o [sentimento de perseguição]( https://exame.abril.com.bcarreira/homens-do-vale-se-organizam-por-mais-direitos/) e [falta de atenção ao seus problemas na estrutura da sociedade] (https://mercadopopular.org/internacional/o-problema-com-o-movimento-pelos-direitos-dos-homens/) passa a ser ainda mais mitigados em função de haverem pessoas que podem simplesmente abandonarem tal condição puramente transacionado entre os gêneros, aumentado ainda mais o sentimento de traição da sociedade que não valorizam seus esforços como também a visão que mesmo os homens trans não possuem as mesmas responsabilidades por não terem nascido como homens biológicos, os largando abandonados e ainda tendo suas reclamações e problemas jogado para um segundo plano para dar espaço para “*problemas mais urgentes na esfera social, jurídica e criminal*”.
Essa é uma sensação devastadora, pois causa uma profunda sensação de abandono e traição de tudo em que acreditaram como correto e que vale a pena defender.
#Como posso ser o individuo mais privilegiado da sociedade se sou tratado como um cão sarnento velho e doente?
Parra a grande maioria dos homens, o foco nas questões dos transexuais não altera a estrutura social ginocentrista e ainda dar a garantia que alguns nascidos homens biológicos possam pura e simplesmente abandonar essas condição e responsabilidades por escolha pessoal, escolha essa que não possuem, visto que os valores masculinos cria a noção que quanto maiores a suas responsabilidades mais homem você se torna, transexuais homens e mulheres que não possuem a mesma cobrança social que eles possuem. É a traição final da sociedade para um com grupo que vem se sentido abandonado.
Como sabemos, estamos em um momento de crise mundial já na primeira semana da nova década, e as piadas sobre a possibilidade da terceira guerra deixa os ressentimento mais a tona.
Em todas as paginas do Reddit e outra redes, piadas de como o feminismo vai mudar o seu discurso de *direitos iguais*, para *não é tão ruim ser dona de casa e criar os filhos*, mostra mais o que para alguns é apenas uma demonstração de misoginia e ódio contra as mulheres, é a evidencia que busca um bem estar social unicamente silenciando quem discorda do conceito geral de igualdade está apena gerando um enorme grupo de pessoas ressentidas e agora que um problema que afetará a vida de todos, guerra em nível global, estão de forma irônica se questionado se as mulheres iram tomar parte nas responsabilidades da manutenção da sociedade ( sim guerras são uma forma de organização social extrema) ou se iram ficar no confortável modelo ginocentrico que visão não expor mulheres ao perigo e sacrificar homem para mante-lo.
Isso é mais que homens com masculinidade frágil distribuído discurso de ódio, é um sinal que o modelo de busca pela igualdade baseada apenas em silenciar discurso de ódio de e dar protagonismo a certos grupos esta corroendo a sociedade por dentro como cupins comendo um arvore, você pode não ver a ação deles matando ela, mais ao tentar escalar seus galhos frágeis e quebradiços não deixa duvidas que tem algo que está muito errado.
Em minha humilde e talvez impopular opinião, o que aconteceu ontem em um shopping em Maceió vai muito além de crescimento do fascismo, da intolerância da transfobia ou qualquer outro comportamento danoso a nossa sociedade, mais si uma clara evidencia que simplesmente não olhar pra sinais simples de que taxar tudo de discurso de ódio e não se questionar o motivo de por que as pessoas estão insatisfeitas e se suas insatisfações possuem alguma fundamento apenas ira fazer com episódios como os de ontem se repitam mais frequentemente ao longo desse ano.
Já não se trata mais de medicar tudo como fascismo, as pessoas estão ficando completamente ressentidas e abandonas por dentro vendo que outras pessoas merecem mais atenção em seus problemas, ouvindo que por serem privilegiadas não deveriam criticar tais ações, ouvindo que deve se desconstruir e ajuda a solucionar os problemas e não vendo ninguém dar qualquer atenção ao seus próprios.
Não é por conta do fascismo ou socialismo que estamos pegando em armas, mas por que preferimos cria um mundo de mentiras, na qual todo ficam em silencio para não ofender ninguém, e você não pode acreditar que da para fazer isso para sempre, uma hora as pessoas se canção e volta agir como querem.
#Ou começamos a investigar esses discursos de ódio e buscamos formas de lidar com as questões de TODO mundo, ou essa guerra sem duvida será a forma de como vamos soluciona isso, acha que “se não estou vendo, logo não existe” vai matar a espécie.
submitted by questionneur_social to brasilivre [link] [comments]


2019.12.04 18:45 odraps Namorado sem atitude

Tenho 29 anos e namoro um cara de 34 anos. Estamos juntos a 7 anos e ao longo da nossa relação nunca fizemos planos pro futuro (viajar, casar, onde morar), já tentei planejar coisas com ele mas ele não acompanha, fica concordando mas não fala muita coisa, conversei com ele sobre isso, pois vi que ele se incomodava com o assunto e ele disse que não fazia planos por não ter dinheiro (mesmo ele estando trabalhando já a 4 anos). Ele mora na casa dos pais e só ajuda na conta de telefone, no mais eu não sei onde ele gasta o dinheiro (talvez ele guarde no banco, mas não sei mesmo), a rotina dele é jogar no pc em todo o tempo livre,trabalha bastante, no mais ele não sai de casa, pois tem depressão moderada e dificuldade de socializar (frequenta psicologo e psiquiatra), quando tem confraternização na empresa ele gosta de ir, pois é muito próximo de alguns colegas que inclusive almoçam com ele nos intervalos (três meninos e uma menina). Sempre que saímos (algo raro, pois geralmente passamos o final de semana em casa assistindo filmes, pois ele não gosta de locais muito cheios) ele reclama que esta gastando muito (mesmo que em um jantar de 60 reais ou uma ida ao cinema de 50 reais), quando digo que eu vou pagar ele se ofende e não deixa, ele faz questão de pagar mesmo reclamando sobre (também faz questão de pagar o estacionamento do shopping e fica perguntando sobre o valor da gasolina do meu carro). Diversas vezes eu dei indireta que queria noivar (afinal já são quase 8 anos na mesma) e que só iria morar com ele algum dia nessas condições, a pouco tempo ele perguntou oq eu achava de morar com ele (não me deu detalhes de onde morar mas já me empolguei) e perguntou se eu estava falando sério sobre só morar com ele se noivasse e eu confirmei, disse que só iriamos nos "juntar" se ele me pedisse em noivado, ele perguntou qual aliança eu queria, mostrei e ainda deixei salvo no computador, ele olhou o valor e torceu o nariz (até agora nada, e ele nem perguntou o número do meu dedo, ou seja, ele não vai comprar a porcaria do anel, me empolguei atoa).
Tenho pensado muito se essa relação tem algum futuro, pois estamos na mesma a quase 8 anos e não evoluímos nesse meio tempo, ele reclama de tudo, não faz planos, não consegue conversar sobre o futuro. As vezes acho que ele esta comigo por estar, apesar de sempre falar que me ama e que se preocupa muito comigo. Ele tem atitudes infantis (acredito que é por ser muito mimado pelos pais, mesmo com 34 anos) e quando brigamos ele fica insuportável e parece uma criança fazendo birra. Em dias normais ele é muito resmungão com tudo e parece um senhor de 90 anos, mas mesmo assim é extremamente carinhoso e atencioso quando estamos juntos, porém não vejo atitudes da parte dele, sei que se eu forçar e tomar a iniciativa ele vai seguir e fazer oq eu mandar, mas acho errado chegar nesse ponto, ao meu ver certas coisas tem que partir dele, pois eu já dei todos os sinais verdes possíveis nessa relação.
Quando ele tinha 20 anos ele namorou uma menina e eles noivaram com dois anos de namoro, estavam prestes a alugar um apartamento (creio eu que eles planejavam muitas coisas pro futuro), aconteceu que ela traiu ele e então ele terminou tudo, ficou alguns anos no processo de superar essa essa relação. Sou a segunda namorada dele. Fico pensando se ele tem algum trauma com isso e fica achando que vou trair, mas se em quase 8 anos ele ainda não confia que eu realmente quero ficar com ele e levo ele a sério eu não sei mais oq fazer. Ele tem alguns problemas psicológicos que fazem com que ele tenha muita dificuldade de se relacionar e confiar nas pessoas, mas acho difícil que seja esse o problema.
submitted by odraps to desabafos [link] [comments]


2019.07.24 17:17 Balinoiss Gostaria muito de discutir a questão trans mas tenho medo de ser tirada de transfóbica.

Meu nome é Luiza, sou estudante de arte, 25 anos e tenho muito medo de puxar qualquer discussão sobre esse assunto e perder amigos e ser taxada de transfóbica simplesmente por querer debater o assunto para tentar entender melhor. Convivo em um meio em que muitas pessoas se identificam de diversas formas, mas pouquíssimas ou nenhuma se propõe a debater essas questões de forma racional, sem levar pro lado pessoal ou achar que por eu não concordar 100% eu estou "matando pessoas trans".
Vou tentar fazer um resumo de como essa questão se desenvolveu em mim. Alguns anos atras eu estava viajando com uma das minhas melhores amigas desde a infância que é lésbica. Estávamos em um restaurante com a familia dela e em algum momento do jantar a irmã dela falou algo sobre "homens com roupa de mulher" se referindo a pessoas trans. Eu - que sempre fui declaradamente uma defensora das diferenças - na hora chamei a atenção dela sobre estar sendo transfóbica e já taxei ela ali mesmo. Logo depois fomos ao banheiro eu e minha amiga e eu comecei a falar com ela sobre a irmã estar sendo transfóbica e como isso era ruim e perigoso. Na hora, minha amiga olhou pra mim e disse "Mas Luiza, o que é ser mulher? É usar rosa? É ser delicada e maquiada? É usar calcinha?" E eu fiquei com cara de tacho. Ali eu percebi que mesmo sendo mulher a 22 anos, nunca tinha me questionado sobre o que é a condição mulher e nem sobre o que fazia com que uma mulher fosse uma mulher. Em outras conversas ela me contou sobre a ex, que é uma mulher que não se encaixa nos padrões de gênero e por causa disso (por usar roupas consideradas "masculinas" pela sociedade) ficava ouvindo de várias pessoas no meio LGBTTQAI+ que ela era trans. A ex dela nunca aceitou isso e se afirma como uma mulher que pode se expressar como bem entende pois não acredita em "coisa de menino/coisa de menina"
Desde muito pequena (a primeira memória é dos meus 4 anos) eu sempre fui chamada de "Maria João", "mulher-macho", "sapatão" e todos os derivados disso por não seguir a risca a cartilha "feminina" e ser um pouco mais moleca. Eu simplesmente não me sentia bem com toda aquela pressão sexual nem com essa frufruzagem florida e cor de rosa que era empurrada goela abaixo das meninas pra no final tudo ser avaliado na competição de quem é mais bonita (desejável) do que a outra. Passei a vida inteira tendo que ouvir das pessoas que elas tinham certeza de que eu era lésbica pelo meu jeito de ser e de vestir, e sempre tive que explicar que nada disso fazia sentido, pois também não acredito na "cartilha da feminilidade"
O tempo passou e eu mantive essa questão sem muito desenvolvimento dentro de mim, até que comecei a andar com muitas pessoas que se identificam como "mulheres trans", e mesmo que na hora eu não percebesse, me incomodava aquela reprodução dos estereótipos do que é "ser mulher" por parte daquelas pessoas. Sempre extremamente sexualizadas, sempre reproduzindo padrões de roupas, de fala, de "interesses", até que eu comecei a pesquisar na internet canais de youtube de pessoas que falavam sobre o assunto pra tentar entender como essas pessoas definiam o que as fizeram se enxergar como mulheres, já que eu mesma nunca tinha conseguido definir o que era ser mulher pra mim (descartando a definição biológica). Percebi que em TODOS os casos que eu tive acesso eram sempre as mesmas questões: "eu via minhas primas brincando de boneca e com cabelos longos e queria isso também", "eu queria usar vestidos e chorava pedindo brinquedos como os da minha irmã", "eu sempre amei usar maquiagem e detestava esportes". Vi até gente que dizia que "simplesmente sentia-se como uma mulher" sem saber explicar como era isso, e eu, que nunca percebi nada dentro de mim que me fizesse "sentir que era uma mulher" passei a perceber como isso era complicado. Tudo que eu passei na vida em questão de sofrer com o machismo, ou de ser discriminada por não ser feminina o suficiente era em decorrência de ter nascido com uma xoxota. Essa xoxota me fez ser exigida ser sempre linda, ser recatada e "do lar", ser vista como menos capaz, tudo isso vem de brinde com uma xota, então como uma pessoa que nunca passou por isso pode dizer que "se sente uma mulher" só porque gosta do estereótipo feminino? Mulher é uma minoria social, por isso é muito complicado quando alguém quer entrar nesse grupo sem vivência nenhuma alegando simplesmente "se sentir parte". Costumo fazer um paralelo com a questão negra: Negros são uma minoria social, você pode se identificar com estereótipos negros, com a estética das culturas ligadas ao povo negro, mas NUNCA uma pessoa branca vai poder dizer que "se sente negro" e que por isso É negro, porque essa pessoa não tem a VIVENCIA do que é ser negro.
Entendo que uma pessoa que não se adequa ao gênero que foi designado ao nascer seja também uma minoria e que tenha uma vivência completamente diferente de quem é "cis", mas isso não faz com que a pessoa saiba como é a vivência do outro. Um menino que quer usar maquiagem não tem a mesma vivência de uma menina que se não usa maquiagem é tida como desleixada e feia. Mulheres trans pedem pelo direito de fazer coisas que aprisionam mulheres a séculos, coisas das quais as mulheres querem se libertar. Enquanto vejo videos no youtube de mulheres trans dizendo que lutaram pelo direito de saírem maquiadas na rua, vejo amigas que choram e não conseguem ter relacionamentos íntimos por medo de que as pessoas as vejam sem maquiagem e as achem feias. São pautas diferentes, não são a mesma coisa, e dizer que são não é vantagem pra ninguém pois atrapalha na identificação e nomeação de tais problemas para ambos os lados.
As páginas que disseminam conteúdo transativista têm muitas contradições, por exemplo: Cartilhas para "identificar sinais de que seu filho é trans" contém pontos como "perceber se a criança tem interesse por brinquedos e roupas designadas para o outro gênero" - mas ué... então eles acreditam em coisas para menino e coisas para meninas??? Isso não é exatamente reforçar os estereótipos de gênero? O órgão sexual define como a pessoa pode se expressar? Uma pessoa que não se adequa a esses estereótipos precisa então ser tratada com hormônios e fazer uma cirurgia para que seu corpo se adeque a esses estereótipos? Detestar o próprio corpo? Se o menino é "feminino" e a menina é "moleca" então isso é sinal de que ela "nasceu no corpo errado"?? Errado não é dizer pra essas crianças que elas precisam se encaixar nisso? Não é muito mais desafiador das estruturas patriarcais um homem que se afirma como homem e diz que homem pode usar o que quiser e continua sendo homem? Dizer que tem que ser mulher para gostar de coisas "femininas" não é exatamente anti diversidade?
Eu acredito que o Gênero é uma cartilha de regras que te entregam assim que você nasce pra te dizer que como a sociedade capitalista quer que você se comporte para que as estruturas se perpetuem, portanto precisamos questionar isso, mostrar que cada pessoa se expressa a sua própria maneira, e que ninguém deveria ter que se encaixar em caixinhas de comportamento.
Esses dias eu vi uma frase que achei muito explicativa, e pela qual uma professora americana foi rechaçada nessa última semana : Ser mulher não é ter uma "personalidade feminina" e qualquer corpo, mas sim ter qualquer personalidade e um corpo feminino. Essa frase pode ser usada para "ser homem" também.
Apesar dessa confusão eu sempre respeito os pronomes e nomeclaturas, e na verdade eu nem mesmo expresso nada desses questionamentos e acima de tudo trato a todos com muito respeito. Acredito que a única forma de chegarmos todos num consenso é conversar e debater, mas esse assunto mexe muito com traumas e com rejeição, então fica difícil que as pessoas consigam conversar sobre sem se sentirem atingidas pessoalmente e portanto o debate fica praticamente inviabilizado. É muito triste isso, e tem consequências sérias na vida de muita gente, pois mulheres são caladas, invisibilizadas, crianças são confundidas e encaixadas mais ainda nas caixinhas e ninguém pode falar nada pois se não é visto como transfóbico causador de mortes. Mesmo questionando a questão eu sempre vou ser partidária do respeito e anti qualquer tipo de violência.
Minha questão não é que as pessoas parem de se expressar como querem, mas que possam se expressar sem que isso faça com que a pessoa precise tomar remédios pro resto da vida, passar a negar e odiar o próprio corpo e principalmente que a questão das mulheres serem oprimidas principalmente pelo fato de serem geradoras de novos seres humanos e por isso precisarem ter sua sexualidade e subjetividade controladas não seja apagada pelo discurso de que "existem mulheres de pinto", pois a única coisa que TODAS as mulheres tem em comum é serem controladas por possuírem xoxota, e nada mais. Não é cor de rosa, não é calcinha, não é maquiagem nem unha grande.
Espero não ter ofendido ninguém com essa postagem, eu só precisei mesmo colocar isso pra fora porque vi uma postagem de um amigo trans dizendo que ia "desenhar pra quem não entendeu" e seguia uma série de imagens na qual a primeira dizia que uma drag queen era um homem que se expressava artisticamente com "signos de mulheres" com a foto da Pablo Vittar ( de maiô, cabelo de baby liss loiro e maquiagem ) e na hora veio um "CARALHOOOW ENTAO Q PORRA É SER MULHER???" na cabeça. Enfim, esse foi o desabafo, se alguém quiser debater ( com respeito) eu vou ficar muito feliz, porque de forma alguma tenho a pretensão de dizer que minha visão é a correta e pronto, estou muito aberta a mudar de opinião, mas pra isso é preciso um debate que seja coerente e baseado em fatos.
submitted by Balinoiss to brasil [link] [comments]


2019.01.07 05:06 sorvetegatinho Paulo

Pedaços de algodão e gaze amarelos de pus enchem o balde. Abriram todas as vidraças. E no calor da sala mergulho num banho de suor. Já me vestiram diversos camisões brancos, que em poucos minutos se ensoparam. Não posso afastar os panos molhados e ardentes.
As crianças estiveram a correr no chão lavado a petróleo.
— Retirem essas crianças.
Inútil trazê-las para aqui, mostrar-lhes o corpo que se desmancha numa cama estreita de hospital. Não as distingui bem na garoa que invade a sala: são criaturas estranhas, a recordação das suas fisionomias apagadas fatiga-me.
— Retirem essas crianças barulhentas.
As paredes amarelas cobrem-se de pus, o teto cobre-se de pus. A minha carne, que apodrece, suja a gaze e o algodão, espalha-se no teto e nas paredes.
A alguns passos, uma figura de mulher se evapora. Aproxima-se, está quase visível, tem uma cara amiga, uma vida que esteve presa à minha. Mas essa criatura, dificilmente organizada, pesa demais dentro de mim, necessito esforço enorme para conservar unidas as suas partes que se querem desagregar.
As minhas pálpebras cerram-se, a mulher esmorece, transforma-se em sombra pálida. Se me fosse possível falar, pedir-lheia que me deixasse.
Os médicos estiveram aqui há pouco, fizeram o curativo. Enquanto amarravam a atadura, os enfermeiros me levantavam, e eu me sentia leve, parecia-me que ia voar, flutuar como balão, esgueirar-me por uma janela, fugir do cheiro de petróleo e do calor, ganhar o espaço, fazer companhia aos urubus. As palmas dos coqueiros ficariam longe, na praia branca, invisíveis como a mulher que desapareceu na sala neblinosa. Os meus olhos não podem varar esta neblina densa.
Creio que dormi horas. O balde sumiu-se. Muitas pessoas falam, há um burburinho interminável na escuridão. Seria bom que me deixassem em paz. A conversa comprida rola na sala enorme; a sala é uma praça cheia de movimento e rumor.
A imobilidade atormenta-me, desejo gritar, mas apenas consigo gemer baixinho. Se pudesse, diria qualquer coisa à figura alvacenta, que tem agora as feições de minha mulher. Um assunto me preocupa, mas certamente ela não me entenderia se eu fosse capaz de expressar-me. Contudo necessito pedir-lhe que mande chamar o médico. A voz sai-me arrastada, provavelmente digo incongruências. Minha mulher espanta-se, grande aflição marcada nos beiços lívidos e na ruga da testa.
Aborreço-me, exijo que me levem para a enfermaria dos indigentes. Estaria lá melhor, talvez lá me compreendessem. Horríveis estas paredes. Sinto-me abandonado, lamento-me, injurio a criatura solícita que se chega à cama. Por que me olha com olhos de mal-assombrado? Não percebeu o que eu disse? Bom que me mandassem para a enfermaria dos indigentes.
A ferida tortura-me, uma ferida que muda de lugar e está em todo o lado direito. Procuro convencer minha mulher de que o lado direito se inutilizou e é conveniente suprimi-lo.
A enfermaria dos indigentes.
Que fim teria levado o médico? Ele me compreenderia, não me olharia com espanto e ruga na testa.
A minha banda direita está perdida, não há meio de salvá-la. As pastas de algodão ficam amarelas, sinto que me decomponho, que uma perna, um braço, metade da cabeça, já não me pertencem, querem largar-me. Por que não me levam outra vez para a mesa de operações? Abrir-me-iam pelo meio, dividir-me-iam em dois. Ficaria aqui a parte esquerda, a direita iria para o mármore do necrotério. Cortar-me, libertar-me deste miserável que se agarrou a mim e tenta corromper-me.
A neblina se dissipa, as paredes se aproximam, estão visíveis as folhas dos coqueiros e o telhado da penitenciária, o avental da enfermeira aparece e desaparece.
A ruga da testa de minha mulher desfez-se. Provavelmente ela supôs que o delírio tinha terminado. Absurdo imaginar um indivíduo preso a mim, um indivíduo que, na mesa de operações, se afastaria para sempre. Arrependo-me de ter revelado a existência do intruso. Certamente minha mulher vai afligir-se com a loucura que me persegue.
Fecho os olhos, vexado, como um menino surpreendido a praticar tolice. Finjo dormir: talvez minha mulher julgue que falei em sonho. Contenho a respiração, o suor corre-me na cara e no pescoço.
Lá fora eu era um sujeito aperreado por trabalhos maçadores, andava para cima e para baixo, como uma barata. Nunca estava em casa. Recolhia-me cedo, mas o pensamento corria longe, fazia voltas em redor de negócios desagradáveis. Recordações de tipos odiosos, rancor, a ideia de ter sido humilhado, muitos anos antes, por um sujeito que se multiplicava.
O nevoeiro embranquece novamente a sala, as paredes somem-se, o rosto da mulher mexe-se numa sombra leitosa. Torno a desejar que me levem para a mesa de operações, cortem as amarras que me ligam ao intruso.
Evidentemente uma pessoa achacada tomou conta de mim. Esta criatura surgiu há dois meses, todos os dias me xinga e ameaça, especialmente de noite ou quando estou só. Zango-me, discuto com ela, penso em João Teodósio, espirita e maluco. João Teodósio tem olhos medonhos, parece olhar para dentro e fala nos bondes com passageiros invisíveis. O homem que se apoderou do meu lado direito não tem cara e ordinariamente é silencioso. Mas incomoda-me. Defendo-me, grito palavrões, e o sem-vergonha escuta-me com um sorriso falso, um sorriso impossível, porque ele não tem boca.
Tentei ler um jornal. As linhas misturavam-se, indecifráveis. Receei endoidecer, mastiguei uns nomes que minha mulher não entendeu, queixei-me do médico e de Paulo. Como ela não conhecia Paulo, impacientei-me, julguei-a estúpida, esforcei-me por me virar para o outro lado, o que não consegui.
Certamente as criaturas que me cercam embruteceram, são como as crianças que estiveram correndo no chão lavado a petróleo. A enfermeira tem caprichos esquisitos, o médico não perceberá que é necessário operar-me de novo, minha mulher franze a testa e arregala os olhos ouvindo as coisas mais simples.
Comecei um discurso, uma espécie de conferência, para explicar quem é Paulo, mas atrapalhei-me, cansei e desprezei aquelas inteligências tacanhas. Tempo perdido. Sentia-me superior aos outros, apesar de não me ser possível exprimir-me.
Realmente Paulo é inexplicável: falta-lhe o rosto, e o seu corpo é esta carne que se imobiliza e apodrece, colada à cama do hospital. Entretanto sorri. Um sorriso medonho, sem dentes, sorriso amarelo que escorre pelas paredes, sorriso nauseabundo que se derrama no chão lavado a petróleo.
Escurece. A camisa molhada já não me escalda a pele: esfriou, gelou. E os meus dentes batem castanholas. Morrem os cochichos que zumbiam na sala. Alguém me pega um braço, dedos procuram a artéria.
A escuridão se atenua, o burburinho confuso reaparece, a camisa torna a queimar-me a pele, os dentes calam-se. Incomoda-me a pressão que me fazem no pulso, tento libertar o braço. A mão desconhecida tateia, procurando a artéria. Há um zum-zum na sala, vozes confundem-se como rumor de asas num cortiço. Sinto ferroadas terríveis na ferida.
Os dedos seguram-me, tenho a impressão de que Paulo me agarra. Um ruído enfadonho, provavelmente reprodução de maçadas antigas, berros de patrões, ordens, exigências, choradeira, gemidos, pragas, transforma-se num sussurro de abelhas que Paulo me sopra ao ouvido. Agito a cabeça para afugentar o som importuno. Se pudesse, cobriria as orelhas com as palmas das mãos.
Afinal ignoro quem é Paulo e reconheço que minha mulher tem razão quando me oferece pedaços de realidade: visitas de amigos, colheres de remédio, a comida horrível.
Devo aceitar isso. Curar-me-ei, percorrerei as ruas como os outros. A princípio arrastar-me-ei pelos corredores do hospital, com muletas, parando às portas das enfermarias dos indigentes; depois sairei, a perna ainda encolhida, andarei escorado a uma bengala, habituar-me-ei a subir nos bondes, verei João Teodósio fazendo sinais misteriosos a um lugar vazio.
Preciso resistir às ideias estranhas que me assaltam. Bebo o remédio, peço a injeção, espero ansioso que o médico venha mudar a gaze e o algodão molhado de pus.
Entrarei nos cafés, conversarei sobre política. Uma, duas vezes por semana, irei com minha mulher ao cinema. De volta, comentaremos a fita, papaguearemos um minuto com os vizinhos na calçada. Não nos deteremos diante da porta de João Teodósio. Apressaremos o passo, fugiremos daqueles olhos medonhos de quem vê almas.
Em que estará pensando João Teodósio? Minha mulher interroga-me admirada, repete palavras incoerentes que dirigi a João Teodósio.
Sem querer, entro a palestrar com ele, de volta do cinema. Apoio-me à bengala e suspendo um pouco a perna avariada.
A ferida começa a torturar-me. Não estou de pé, cavaqueando com um vizinho amalucado, estou de costas num colchão duro. Veio-me um acesso de tosse, e o tubo de borracha que me atravessa a barriga parece um punhal. Gemo, o suor corre-me entre as costelas magras como as de um cachorro esfomeado. Tenho sede. A enfermeira chega-me aos beiços gretados um cálice de água. Bebo, ponho-me a soluçar. Os soluços sacodem-me, rasgam-me, enterram-me o punhal nas entranhas.
Estou sendo assassinado. Em redor tudo se transforma. O avental da enfermeira ficou transparente como vidro. Minha mulher abandonou-me. Acho-me numa floresta, caído, as costas ferindo-se no chão, e um assassino fura-me lentamente a barriga. As paredes recuam, fundem-se com o céu, as folhas dos coqueiros tremem, e passa entre elas o cochicho que zumbe na sala.
Paulo está curvado por cima de mim, remexe com um punhal a ferida. Estertor de moribundo na floresta, perto de um pântano. Há uma nata de petróleo na água estagnada, coaxam rãs na sala.
Não conheço Paulo. Tento explicar-lhe que não o conheço, que ele não tem motivo para matar-me. Nunca lhe fiz mal, passei a vida ocupado em trabalhos difíceis, caindo, levantando-me, cansado. Peço-lhe que me deixe, balbucio súplicas nojentas. Não lhe quero mal, não o conheço.
Mentira. Sempre vivemos juntos. Desejo que me operem e me livrem dele.
Sairei pelas ruas, leve, e o meu coração baterá como o coração das crianças. Paulo ficará na mesa de operações, continuará a decompor-se no mármore do necrotério.
O que estou dizendo, a gemer, a espojar-me, é falsidade. Paulo compreende-me. Curva-se, olha-me sem olhos, espalha em roda um sorriso repugnante e viscoso que treme no ar.
Uma figura branca desmaia. O burburinho finda. Alguém me segura novamente o braço, procurando a artéria. O punhal revolve a chaga que me mata.

- Graciliano Ramos
submitted by sorvetegatinho to historias_de_terror [link] [comments]